Dossiês

Cais: Um Porto de Abrigo

Para as Tempestades da Vida

Paulo António Monteiro
16/04/2013
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A CAIS "pretende ser um cais onde os "barcos" chegam, descansam, reabastecem, reparam algumas peças e seguem viagem". Esta é a definição de Maria João Gomes, animadora cultural da CAIS Lisboa. O New4Media visitou a associação sediada junto ao porto de Lisboa, que se dedica a apoiar pessoas em situação de emergência social.
O projeto mais visível da CAIS é a revista com o nome da associação, vendida nas ruas de várias cidades do país. A metodologia seguida centra-se em capacitar para dar ferramentas que permitam aos utentes tornarem-se autónomos na vida futura.

As pessoas chegam à associação por encaminhamento, sinalizadas por outras organizações ou diretamente porque, tendo ouvido falar nela, procuram uma resposta social para os seus problemas. Chegam numa fase de transição: saíram da rua e pernoitam em albergues, mas já fizeram alguma mudança nas suas vidas e têm vontade de mudar ainda mais.

Quando entram, são confrontadas com uma realidade diferente do habitual, podem usufruir de um conjunto alargado de serviços de apoio como, por exemplo, restaurante, lavandaria, aulas de relaxamento, cidadania, Português, Inglês, etc. Com a particularidade importante de nenhum desses serviços ser oferecido gratuitamente, ou seja, os utentes pagam de acordo com as suas possibilidades. 

"O princípio seguido não é dar o peixe mas ensinar a pescar", explica Maria João Gomes, animadora cultural. Dito por outras palavras a questão vai no sentido de dar o direito a quem, pagando, "tem direito a um serviço bem feito”.

Nesta lógica, Capacitar Hoje é o programa desenhado pela CAIS para a formação na venda da revista, lavagem de carros ou manufactura de artigos com materiais reciclados, de modo a estabelecer uma base que ensine primeiro a fazer e mais tarde dê autonomia. Isso é feito de acordo com um plano personalizado, acordado e preparado individualmente com cada utente

A revista distribuída por vendedores equipados com coletes vermelhos nos cruzamentos centrais da cidade é a atividade mais visível da associação.
  
De acordo com Denise Cadete, responsável pela distribuição da revista, um novo colete com um número bem visível, identifica claramente os vendedores autorizados, distingue de eventuais abusos. Se não tem número visível, não é um vendedor autorizado

O que recebem é efetivamente dos vendedores. "O que fazem com o dinheiro é decidido por eles, mas como estão num projeto social os objetivos são vistos e acordados”, afirma Denise.

Um dos primeiros objetivos é a compra do passe, para se poderem movimentar e ir às entrevistas de emprego. Depois, é importante saber se o dinheiro já dá para pagar a luz e a água. Se não, é importante perceber onde está a ser aplicado. Tudo é discutido e estabelecido de acordo com o utente, o destino do fruto do trabalho tem que fazer sentido em função dos objetivos estabelecidos no acompanhamento social.

Para levar a cabo tamanha tarefa, a CAIS conta, para além de um staff técnico próprio, com um grupo de voluntários, maioritariamente composto por mulheres reformadas e antigas professoras. Mas conta igualmente com estudantes universitários que disponibilizam o seu tempo para ajudar a realizar as várias atividades que acontecem semanalmente. Com a equipa de técnicos, dinamizam e garantem que as pessoas estejam ocupadas com a sua formação e continuem assim o seu plano de vida pessoal.

São vários os projetos culturais desenvolvidos pela associação com o objetivo de divulgar e integrar os utentes na sociedade. O Congresso, onde se discute a exclusão e a integração social. O Aventura-te, que liga a parte cultural com a inclusão, misturando as pessoas com ou sem abrigo. O Pedi Paper pela cidade de Lisboa, que envolve equipas formadas por utentes, técnicos e voluntários. O Pão de Todos Para Todos, uma padaria ao ar livre que distribui pão e cultura a todos no mês de dezembro. O Futebol de Rua, um projeto de desporto inclusivo, que trabalha com associações a nível nacional, reúne as equipas e realiza uma final onde vários distritos participam e onde a equipa vencedora vai representar Portugal no Mundial de Futebol de Rua.
 
Estes projetos anuais tentam, de alguma maneira, agregar a sociedade civil e despertar consciências para estas questões.

A CAIS é uma mola, um trampolim, um verdadeiro porto de abrigo onde os utentes descansam, reabastecem, reparam algumas peças e seguem viagem. Completando o seu plano de integração social, levam a vida para a frente para águas mais tranquilas, que muitos tomam por garantidas.

O trabalho desenvolvido dá frutos. São muitos os casos de sucesso que já não dependem da CAIS, conseguiram sair do albergue, alugaram um quarto, posteriormente uma casa e têm o seu emprego, após ultrapassarem as tempestades da vida. Tornam-se completamente autónomos e integrados nas comunidades onde vivem.

TAGS: cais, sem abrigo, exclusão social, pobreza

 

Últimos comentários

  • Manuel Gonçalves
    2013-05-25 23:31:36
    Excelente artigo. Fiquei sabedor daquilo que desconhecia em virtude do aprofundamento efectuado pelo Paulo António Monteiro. Será com uma visão mais esclarecida que olharei para os voluntários da CAIS. Cordiais saudações

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