Dossiês

Ricardo Lourenço

Entrevista a Ricardo Lourenço correspondente do Expresso nos EUA

Eduarda Fernandes e Diogo Marqes
14/10/2011
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Os “Indignados” de Nova Iorque apoderaram-se de Liberty Plaza e fizeram dela uma aldeia forrada a barracas e tendas de plástico. No distrito financeiro de Nova Iorque, à saída de Wall Street e em frente ao monumento de homenagem aos atentados terroristas de 11 de setembro, os manifestantes - que já são ponto turístico obrigatório - vêem crescer os protestos noutras cidades dos EUA, recebem a visita de personalidades - da política à música - e organizam assembleias, debates e atividades culturais. Falámos com Ricardo Lourenço, correspondente do Expresso em Nova Iorque, para perceber como se vive entre os manifestantes em Wall Street.



Após 4 semanas de protestos, qual o ambiente que se vive em Wall Street?

 

Na semana passada estava em reportagem para o expresso quando houve a maior manifestação até agora que juntou cerca de 15 mil pessoas.

Os protestos já se alastraram pelo país. Tudo começou em Wall Street, com uma manifestação mais ou menos folclórica e foi ganhando substância, substância essa que foi espelhada em vários movimentos, como os protestos em Washington, contra os gastos que as três guerras – Afeganistão, Iraque e a guerra contra o terrorismo – imputam aos Estados Unidos da América. Outro exemplo, é a própria manifestação em Nova Iorque, que há uma semana ganhou outra dimensão quando a os sindicatos, que têm uma força enorme, por serem dos maiores contribuintes líquidos para as campanhas democratas, se juntaram aos protestantes. Assim sendo já é visível alguma colagem política de candidatos que estão a concorrer para a nomeação republicana, caso de Newt Gingrich, que apoiou o movimento no Zuccotty Park.

 

Como é o dia a dia nessa espécie de acampamento gigante no meio da cidade?
O dia-a-dia assemelha-se a uma aldeia. Imagine o Rossio dividido por secções, uma é a farmácia, outra a biblioteca, o refeitório, entre outros locais. Todos os dias os manifestantes recebem doações online que usam para comprar comida. Há pessoas que pagam a pizarias e restaurantes das imediações para distribuírem bebidas e comidas pelos manifestantes. Também é interessante ver que no meio daquela gente toda há os sem-abrigo, que vêem naquelas refeições grátis uma excelente forma de continuar a sobreviver.

Depois tens tudo polvilhado de sacos-cama, é importante perceber que os manifestantes são, na sua maioria, estudantes e desempregados. O desemprego nos Estados Unidos é de 9.1% mas o desemprego junto aos jovens licenciados chega quase aos 20%, tens os distritos de Queens e Brookllyn pejados de gente bem formada, preparada, mas que não consegue arranjar emprego numa cidade como Nova York, onde a competição é enorme e onde, fora da bolha de Manhattan, se sente a crise.

os manifestantes são, na sua maioria, estudantes e desempregados. O desemprego nos Estados Unidos é de 9.1% mas o desemprego entre aos jovens licenciados chega quase aos 20%.

A polícia tem colaborado e sido tolerante?

Depende. Na semana passada estava em reportagem para o expresso quando houve a maior manifestação até agora, juntou 15 mil pessoas, estavam presentes dezenas de sindicatos e estudantes, sendo estes dois grupos os maioritários. Começou por volta das 16h e terminou com a junção dessas milhares de pessoas aos manifestantes no Zuccotty Park. Acontece que, à medida que as pessoas circulavam, um grupo, que diverge dos manifestantes do grupo principal, segundo os jornais seriam por volta de 100 pessoas, quiseram ter acesso ao distrito financeiro, ao centro de Wall Street, e ai sim, houve violência, houve pessoas detidas e ruas barricadas com motas da polícia. O mesmo aconteceu há uma semana e meia, quando os manifestantes tentaram atravessar a ponte de Brooklyn, onde foram detidas 700 pessoas. Os manifestantes queixam-se do uso excessivo de força, o uso do gás pimenta mas violência brutal ou de sangue a escorrer, não tem havido. De resto, o comportamento tem sido absolutamente pacífico, são um bocadinho mais incisivos no seu protesto, mas são jovens e é normal que protestem de uma forma mais viva. O que vi de mais provocador foi uns tipos a mostrar o rabo à polícia, foi o mais provocador que eu vi. Ou seja, a violência não é evidente mas eles demonstram que estão dispostos a usa-la se for preciso, está ali latente.
Quando tu tens intelectuais, políticos e propostas concretas em cima de pessoas que estão disponíveis para manifestarem-se todo o dia, começas a ter um movimento social consistente, é isso e é o perceberes que está a começar a alastrar para as outras cidades. É bom que se comece a perceber que isto, que começou como um movimento folclórico, está a ganhar dimensão e está a ganhar dimensão social e que pode ter relevância, até porque, tens umas eleições no ano que vem. Não podemos esquecer o que aconteceu na Direita, o Tea Party conseguiu em novembro eleger 90 congressistas, o Tea Party, há 3 ou 4 anos, era como estes indivíduos, eram uns quantos insignificantes. Tens uma reação extremista do lado da direita, é natural que depois vais ter o mesmo do lado da esquerda, é o pêndulo, não é. Acho que esse é que é o ponto fundamental que se deve perceber.
A polícia é normal, eles estão lá, mostram a sua presença, mostram-se disponíveis para usar e abusar da violência se for preciso, mas até agora isso não tem sido alvo de relevância.

Quais são as criticas que os outros cidadãos nova-iorquinos têm feito em relação ao que se esta a passar?
Nova Iorque é uma cidade em que tu não vês a mesma cara duas vezes seguidas o resto da tua vida, é tanto o rebuliço, é tanta a efervescente, que aquilo em si não é um problema. É visto pelos turistas como mais um ponto de interesse, vão todos ao Zuccotty Park tirar fotografias, por um lado, por outro, até os próprios tipos de Wall Strett passam por ali e riem-se, cruzam-se, comentam, até trocam umas bocas uns com os outros. Não há criticas porque faz parte da vida de Nova Iorque, ou seja, Nova Iorque é muito assim. Como no final da década de 70, com a Pop art, houve todo um rebuliço cultural que existiu e aconteceram coisas enormes, a cidade reestruturou-se, reformou-se. A cidade está habituada a reformar-se, está habituada ao rebuliço e nesse sentido, não há nenhuma critica das pessoas ‘ah, vão se embora, o que é que estão aqui a fazer’ até porque Nova Iorque é muito progressiva, é muito liberal. Se a manifestação fosse algures no centro do Kentucky, provavelmente tinhas os camponeses com as alfaias a bater nas pessoas, agora em Nova Iorque não, porque faz parte do ADN da cidade esse rebuliço, essa efervescente cultura e social, é normal.

 

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