Dossiês

Opinião

O Sim que Portugal quer ouvir

Renato Tezolin
12/03/2011
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A Geração à Rasca mostra-nos que a história é cíclica. A Tropicália e as canções de intervenção saíram vitoriosas. Sairemos nós também?



É impressionante como, ao longo da história, terrenos tão inférteis quanto os das ditaduras, opressões políticas, racismos, guerras e gerações verdadeiramente à rasca, a música cresce com tanta criatividade, força e influência. Assume um papel de líder unificador que sensibiliza e mobiliza cabeças e corações com algo em comum.

Dois momentos históricos, em língua portuguesa, foram justificados e ganharam novas cores através de músicas libertárias, face aos engenhos sem arte dos governos que não cumpriram a missão de salvaguardar o bem-estar dos seus cidadãos: a Tropicália no Brasil e as canções de intervenção, que precederam o 25 de Abril em Portugal.

Canções como Alegria, Alegria (Caetano Veloso), Pra Não Dizer que Não Falei das Flores (Geraldo Vandré), Grândola, Vila Morena (Zeca Afonso), Tourada (Fernando Tordo) foram cantadas - mesmo que com as bocas fechadas - como hinos pelos populares destas nações que transpiravam desejos de mudanças. E elas aconteceram.

Curioso é relembrar que muitas destas canções de intervenção e protesto foram apresentadas, e premiadas, em festivais de música em ambos os países. Assim também aconteceu recentemente com os Homens da Luta. Premiados no Festival da Canção, é uma prova evidente de que os jovens portugueses não estão satisfeitos com a realidade em que vivem. Faltam trabalhos, melhores condições nestes e estágios dignos para quem investiu dinheiro e anos de vida a tirar uma licenciatura. E o movimento da Geração à Rasca, impulsionado pela projecção deste descontentamento na canção Que Parva que Sou, dosDeolinda, só o reafirma.

Sobre uma Geração Rasca a banda punk lusitana Fita Cola já cantava em 2008. Então talvez seja caso para perguntarmos: Estamos diante de um novo movimento músico/cultural em Portugal? Conseguirão estes milhares de descontentes a oportunidade de um trabalho digno ou Portugal vai continuar a ser um país cada vez mais envelhecido com a imigração destes jovens?

Só o tempo mostra estas respostas. Mas se a força, persistência, ânimo e criatividade desta Geração à Rasca nos der Sim para as duas perguntas, Portugal sairá vitorioso.

"Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer…”

 

TAGS: música, Geração à Rasca, Tropicália, canção de intervenção, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Zeca Afonso, Fernando Tordo, Homens da Luta, Deolinda, Festival da Canção

 

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