Dossiês

As novelas portuguesas têm-se desenvolvido bastante e conseguiram atrair a atenção dos portugueses

Conclusões acerca das mudanças na perceção dos portugueses sobre o Brasil com a chegada das novelas brasileiras

Alexandra Ribeiro | Cátia Colaço | Cátia Tocha | Daniel Brízido Costa | Soraia Pinto
03-09-2014
0

Desde o início da transmissão de novelas brasileiras em Portugal que o país se tornou grande consumidor das mesmas. No entanto, as novelas portuguesas conseguiram também obter sucesso junto às audiências, o que as torna uma "ameaça" para as novelas do Brasil.


Desde 1977, ano de transmissão da primeira telenovela brasileira em Portugal, "Gabriela, Cravo e Canela”, que este género televisivo tem sido um produto mediático de grande impacto na sociedade portuguesa (Policarpo, 2001). O facto de "Gabriela” ter ocorrido nesse ano, conhecido como uma época conturbada para o país devido a vários motivos, como o da recente adaptação à democracia após quarenta anos de ditadura, também contribuiu bastante para o impacto e a grande receção de "Gabriela” na sociedade portuguesa (Cunha, 2003a). Alguns telespectadores afirmaram haver semelhanças entre a história da novela e a realidade em Portugal. 

Muitos encontravam nela uma semelhança com a situação de fascismo vivida pelo povo português, devido à existência dos coronéis conservadores no enredo, que queriam dominar através da lei "do chicote” e da "bala” e impedir o progresso e o modernismo (Cunha, 2003a; Feronha, 2004).A novela que conquistou vários tipos de classe causou mudanças na cultura portuguesa. A existência de personagens mais livres e desinibidas, como Gabriela, e menos submissas, como Malvina, vieram mostrar atitudes e comportamentos mais modernos às mulheres portuguesas (Cunha, 2003a).A partir de 1977, o país tornou-se no maior consumidor de telenovelas brasileiras (Costa, 2003 apud Sobral, 2012). A"Gabriela” abriu a porta às restantes novelas brasileiras, que têm contribuído até hoje para a formação e identificação das representações sociais do Brasil no imaginário dos portugueses (Cunha, 2003b; Lisboa, 2011: 278). Com a criação da SIC, em 1992, as novelas passaram a ser transmitidas em três canais, ou seja, na RTP1, na RTP2 e na SIC, aumentando bastante o volume de transmissão deste produto no país (Brittos, 2002 apud Ferreira, 2014) e estabelecendo a sua hegemonia. Devido à transmissão das mesmas, os portugueses ficaram a saber muito mais sobre o Brasil do que os brasileiros sobre Portugal (Lisboa apud Lisboa, 2011: 281). Dois anos depois, em 1994, a SIC assina um contrato de exclusividade com a Rede Globo, tendo em vista a transmissão das telenovelas daquela estação brasileira, que lhe permitiu tomar a liderança das audiências (Burnay, 2006). No entanto, a hegemonia da telenovela brasileira nas televisões portuguesas tinha os seus dias contados. A TVI, o outro canal privado português criado poucos meses depois da criação da SIC, começou a apostar, no final da década de 90, na ficção nacional. Essa aposta da TVI levou-a ao primeiro lugar no ranking televisivo (Cunha, 2003a apud Burnay, 2006). O grande êxito deste canal começou com a transmissão da sua primeira telenovela portuguesa, "Todo o Tempo do Mundo”, que esteve no ar entre outubro de 1999 e abril de 2000 (Burnay, 2006). Apercebendo-se do enorme e repentino sucesso da ficção nacional na TVI, a SIC começou também a apostar, para o seu horário nobre, nas telenovelas nacionais, transmitindo a sua primeira novela portuguesa, "Ganância”, em 2001 (Burnay, 2006). Verifica-se assim que a década de 90 veio alterar por completo o modo como as audiências ficaram cada vez mais divididas, em relação ao seu perfil. Na década de 70, todos os sexos e classes etárias assistiam a telenovelas. 

Quanto ao ensino, tanto os mais letrados como os menos letrados consumiam as novelas da época, visto ser novidade e haver falta de escolha de conteúdos televisivos, tanto pelo conteúdo em si como por só haver uma estação televisiva, a RTP.Na década de 80 era o público menos letrado que, predominantemente, consumia as telenovelas transmitidas pela RTP1, sendo que o restante público preferia ver programas de interesse cultural, no canal 2 (RTP2). Predominantemente, era o público feminino que consumia as telenovelas brasileiras. Contudo, a divisão do perfil da audiência não é muito visível quanto à idade do público, visto que ainda não havia grande variedade de telenovelas brasileiras em Portugal. Já na década de 90, era a Classe D (mais popular e menos letrada) que mais assistia a este produto televisivo, na maior parte das vezes o público mais jovem durante a tarde, e o público mais velho durante a noite. Continua a ser o fiel público feminino o que mais visiona as ditas telenovelas, apesar de o público masculino estar, nesta década, cada vez mais a aderir a este género.Por fim, na década de 2000 e 2010, o público feminino continua a ser aquele que mais consume as telenovelas brasileiras em Portugal. Outro fator que é unânime em todas as produções brasileiras é que estas são consumidas por pessoas que frequentaram o ensino básico, predominantemente. Os únicos fatores que variam consoante as produções são o posto de trabalho e a faixa etária. As produções históricas são consumidas, predominantemente, por trabalhadores não qualificados e domésticos, as produções contemporâneas predominantemente por estudantes, e as produções contemporâneas de caráter cómico por trabalhadores não qualificados. Quanto à faixa etária, as produções históricas são mais consumidas pelo público que nasceu durante o Estado Novo, com idades compreendidas entre os 45 e 65 anos de idade. Já tanto as produções contemporâneas, como as produções contemporâneas de caráter cómico são, predominantemente, consumidas pelo público com idades inferiores a 20 anos de idade. Relativamente ao intercâmbio de atores entre Portugal e Brasil, tem vindo a crescer ao longo do tempo a quantidade de atores portugueses que fazem novelas brasileiras. Contudo também existe o contrário, ou seja, atores brasileiros em novelas portuguesas. 

Desde os anos 60 que o povo português é representado em novelas brasileiras, nomeadamente associado ao trabalho em padarias ou confeitarias. Nessa altura esta representação era feita por atores brasileiros. Mais tarde iniciou-se um processo de renovação nacional da novela brasileira com a novela "António Maria”. Geraldo Vietri, escritor desta novela, homenageou os imigrantes portugueses sem propagar o estereótipo anedótico, criando a personagem António Maria, um "português herói, desbravador, galante, que declamava Camões”. Na década de 70 assistimos à primeira presença de portugueses em novelas brasileiras, com os atores João Lourenço e Irene Cuz na novela "Os Deuses Estão Mortos”. Mas é na década de 90 que o interesse por atores portugueses em telenovelas brasileiras cresce e é também quando surge a primeira novela resultante da co-produção entre a TV Globo e a RTP, em 1992, intitulada de "Pedra sobre Pedra”. 
A partir daí, a quantidade de atores aumentou e pela primeira vez um ator português é protagonista numa novela da Globo, sendo ele Ricardo Pereira.Todo este processo de inserção de portugueses em novelas brasileiras representa um marco relativamente à presença da cultura portuguesa na maior produção ficcional da televisão brasileira. Conclui-se assim que a chegada das novelas brasileiras a Portugal veio revolucionar completamente a televisão portuguesa e foi também uma forma de fortalecer o já antigo elo que une Portugal e o Brasil.

As novelas brasileiras sempre tiveram uma boa aceitação por parte do público português e existem imensos fatores que foram propícios a todo este sucesso, sendo o primeiro, o facto dos dois países falarem a mesma língua, assim como o facto de ambos partilharem um «imaginário comum de mitos, heróis e acontecimentos, paisagens, recordações e saudades» (Ferin, 2001 apud Silva; Cogo, n.d.). As telenovelas, sejam brasileiras ou portuguesas, são a rampa de sucesso de qualquer canal. Mas particularmente em relação às novelas brasileiras, estas significaram para as novas classes suburbanas uma janela para a modernização e para a democratização (Appadurai, 1996 apud Burnay, 2006) e continuam a persistir nas grelhas de programação em Portugal por garantirem cerca de 20% de participação na audiência (Carriço, 2010 apud Jornal de Notícias, 2011).No entanto, com o passar do tempo as audiências das novelas brasileiras baixaram bastante relativamente a quando estas chegaram a Portugal, em 1977.Isto prova, com base nas entrevistas feitas, que, embora as novelas brasileiras tenham tido uma grande importância a nível histórico, o facto é que, atualmente, as novelas portuguesas estão a ultrapassar as brasileiras em Portugal.

Referências

  • Burnay, C. D. (2006). Identidade e identidades na ficção televisiva nacional 2000-2006. In: Repositório Institucional da Universidade Católica Portuguesa. Recuperado em 17 de junho, 2014,
  • Cunha, I. F. (2003a). A revolução da Gabriela: o ano de 1977 em Portugal. In: Biblioteca Online de Ciências da Comunicação. Recuperado em 3 de junho, 2014, de http://bocc.ubi.pt/pag/cunha-isabel-ferin-revolucao-gabriela.html

  • Cunha, I. F. (2003b). As telenovelas brasileiras em Portugal. In: Biblioteca Online de Ciências da Comunicação. Recuperado em 15 de junho, 2014, de  Feronha, J. L. (2004, 6 de Novembro).

  • Gabriela, Portugal não foi igual depois dela. In: Correio da Manhã. Recuperado em 3 de junho, 2014, de http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/lazer/tv--media/gabriela-portugal-nao-foi-igual-depois-delaFerreira, R. (2014). Uma história das audiências das Telenovelas portuguesas e brasileiras em Portugal. In: Estudos em Comunicação. Universidade da Beira Interior. Recuperado em 14 de agosto, 2014 de http://www.ec.ubi.pt/ec/16/pdf/EC16-2014Jun-07.pdf
  • Lisboa, W. T. (2011). Geração à Gabriela: memória e outras mediações na construção de representações do Brasil em Portugal. In: Anuário Internacional de Comunicação Lusófona. Recuperado em 3 de junho, 2014, de http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/anuario/article/view/810/729
  • Policarpo, V. M. (2001). Telenovela brasileira: Apropriação, género e trajectória familiar. Dissertação de Mestrado em Sociologia, Universidade de Coimbra, Faculdade de Economia, Coimbra. Recuperado em 14 de junho, 2014, de https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/9751/1/Policarpo%2c%20Ver%C3%B3nica%20Melo.pdf
  • Silva, L. A. P.; Gogo, D. (n.d.). Brasil – Portugal: internacionalização da telenovela brasileira e emigração contemporânea. p. 1-16. Recuperado em Media Multiculturalismo
  • Sobral, F. A. (2012). Televisão em contexto português: Uma abordagem histórica e prospetiva. Instituto Politécnico de Viseu. Recuperado em 15 de junho, 2014, de http://www.ipv.pt/millenium/Millenium42/10.pdf

Trabalho elaborado no âmbito da unidade curricular de Media e Mercado de Língua Portuguesa do Mestrado em Comunicação Aplicada - Especialidade de Estudos Aplicados em Jornalismo

 

Últimos comentários

Comentários