Dossiês

O ator português Ricardo Pereira foi o primeiro protagonista, e único até agora, de uma novela brasileira

Presença de atores portugueses em novelas brasileiras e atores brasileiros em novelas portuguesas

Soraia Pinto
03-09-2014
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As novelas invadem o quotidiano das pessoas de tal forma que a sociedade tende a seguir determinados padrões que visualiza na televisão.


São os atores que, ao dar vida às suas personagens, fazem a novela e desta forma é feita uma análise, neste documento, acerca da entrada de vários atores portugueses em novelas brasileiras e brasileiros que participaram em novelas portuguesas para se poder entender de que forma evoluiu este processo ao longo do tempo.
Desde os anos 60 que a representação do imigrante português nas novelas estava associada ao trabalho, nomeadamente as padarias e confeitarias. Contudo essa representação era feita ainda com atores brasileiros. A primeira personagem portuguesa numa novela brasileira foi representada por Leonardo Villar em "A Cor da Sua Pele” (1965), exibida pela Tupi. Ainda em 1968 a novela "Muralha”, da Excelsior, utiliza também personagens portuguesas que são representadas por atores brasileiros. (Javorski, 2013:2-3)
Além desta duas novelas, foi com "Antônio Maria” que se iniciou um processo de renovação nacional da novela brasileira. Geraldo Vietri, escritor da novela, declara na revista Melhores Momentos que "Por muito tempo os portugueses chegados ao Brasil encontraram - não resta dúvida - incentivo (...). Se mais não pudermos fazer, temos a nos tranquilizar a consciência um fato somente: Antônio Maria serviu para mudar a imagem do português invasor, do português colonizador, do português bigodudo das piadas. Consegui, antes e acima de tudo, provar o valor não de um homem, mas de todo um povo - o português - associado ao valor de outro povo - o brasileiro (...).” (Alencar apud Vietri, 2000:6). Aquilo que Vietri pretendia era homenagear os imigrantes portugueses mas sem propagar o estereótipo anedótico, criando a personagem António Maria, um "português herói, desbravador, galante, que declamava Camões”. (Javorski apud Alencar, 2013:2-3). A repercussão que isto teve foi de tal modo eficiente que o governo de Portugal concedeu a Vietri a Comenda do Infante Dom Henrique, uma das mais importantes homenagens do país. Para Alencar, António Maria exaltou o povo português e uniu de "maneira saudável o Brasil a Portugal”. (Alencar, 2000:7)
Já Isabel ferin, investigadora na área das novelas, refere que a presença de atores portugueses nas novelas altera de certo modo a imagem de Portugal devido à visão estereotipada que é feita. (Ferin, comunicação pessoal, 8 de Agosto).
É então na década de 70 que assistimos à primeira presença de portugueses em novelas brasileiras. Só em 1971 os atores João Lourenço e Irene Cuz participam na novela "Os Deuses Estão Mortos”, de Lauro César Moniz, produzida pela Tv Record. (Javorski, 2013:4).
Em 1976 com a novela da Globo "O Casarão” assistimos à presença dos portugueses Laura Soverale e Tony Correia, no elenco. Laura Soverale viria a participar mais tarde na novela pertencente também à Rede Globo "Duas vidas”, exibida entre 1976 e 1977. (Alencar, 2000:11).
Já Tony Correia alcançou um grande sucesso. Ao chegar ao Brasil, em 1976, é descoberto e convidado pelo produtor Moacyr Deriquem para integrar o elenco da novela ” O Casarão ” onde interpretou a personagem de Jacinto, um imigrante português que chega ao Brasil por volta de 1859. Um ano mais tarde participa na "Locomotivas ”, da Tv Globo, onde interpreta Machadinho, uma das personagens mais marcantes na história da telenovela brasileira, que conta a história de um homem que chega de Portugal para visitar os parentes. Segundo Mauro Alencar, através desta novela criou-se um "cartão postal” que unia afetivamente Brasil e Portugal. (Alencar, 2000:1) Esta novela de Cassiano Gabus Mendes torna-se uma coqueluche nacional. Para além de ter sido a primeira novela a cores do horário das 19h, as cenas eram gravadas em Portugal. Deste modo criou-se uma união e proximidade entre Brasil e Portugal.
Nesse mesmo ano, Tony Correia, faz "Férias sem Volta”, gravado em Portugal e em 1978 participa numa novela da TV Tupi intitulada de "Aritana”.
Décadas depois, no seu regresso ao Brasil, volta a trabalhar como ator em "Roda da Vida” (2001), da Tv Record, e na Tv Globo participa em "Sabor da Paixão” (2003), "Celebridade” (2004) e ainda "Belíssima” (2006).
Em 1976 uma das novelas mais exportada do mundo, "Escrava Isaura”, também contou com a participação de uma atriz portuguesa, Ana Maria Grova, que interpreta a personagem de Eneida. (Javorski, 2013:5).
A década de 80 é marcada por um acréscimo de personagens portuguesas nas novelas brasileiras, em grande parte representadas por atores brasileiros. No entanto temos a participação de alguns portugueses como David Arcanjo em "Os Imigrantes” (1981), transmitido pela Rede Bandeirantes, Sinde Filipe e Eugénia Melo e Castro no remake da novela "Antônio Maria” (1985),emitida pela TV Tupi e Luis de Lima em "Carmen” (1987), produzida pela Rede Manchete.
Uma das primeiras tentativas de intercâmbio entre Brasil - Portugal aconteceu com a novela "Pedra sobre Pedra”. Foi a primeira novela que resultou da co-produção entre a TV Globo e a RTP, em 1992, contando com dois portugueses no elenco, Carlos Daniel e Suzana Borges, que interpretavam Ernesto Soares Melo e Inês Soares Melo. É então na década de 90 que se começa a intensificar a participação de portugueses em novelas brasileiras, acelerando ainda mais o processo de intercâmbio cultural. "Salsa e Merengue” (1996), da TV Globo, contou com a participação especial de Paulo Pires e Marques D’Arede. A Rede Bandeirantes, por sua vez, traz Diogo Infante e Cristina Carvalhal a "Perdidos de Amor” (1996) e Helena Laureano a "A Idade da Loba” (1996).
Em 1996, "Xica da Silva”, um sucesso da extinta Rede Manchete também contou com alguns atores portugueses no elenco como António Marques, Lidia Franco, Anabela Teixeira, Rosa Castro André e ainda Gonçalo Diniz. (Javorski, 2013:8-9).
A década de 2000 é marcada pelas novelas da Rede Globo, começando com "A Padroeira” (2001) onde entra novamente o ator António Marques na personagem de Conde de Assumar e "O Clone” (2001), também transmitida pela SIC, onde Maria João Bastos se estreia na TV Globo encarnando a personagem da jornalista Amália. Mais tarde, em 2002, a atriz volta a fazer parte de uma novela brasileira, filmada em Portugal, intitulada de "Sabor da Paixão”. (Javorski, 2013:10).
Em 2004 a Record faz um remake da "Escrava Isaura” e coloca a atriz portuguesa Paula Lobo Antunes a encarnar a personagem Aurora. Neste mesmo ano a Globo grava de novo por terras lusitanas, nomeadamente Guimarães, Braga e Porto, onde entra Ricardo Pereira, Joana Solnado e António Reis.
Ainda em 2004 Nuno Melo faz o papel de Constantino a novela "Senhora do Destino”.
No ano seguinte, em 2005, Ricardo Pereira volta aos ecrãs, mas desta vez em "Prova de Amor”, produzida pela Record e em 2006 volta à Globo para participar em "Pé na Jaca”.
Em 2006 a Bandeirantes em co-produção com a RTP produzem a novela " Paixões proibidas”, baseada na obra de Camilo Castelo Branco, onde entravam vários atores portugueses, tais como Pedro Lamares, Natália Luísa, São José Correia., Virgilio Castelo, Nuno Pardal. As primeiras cenas são filmadas em Coimbra e o final da novela também é gravado em Portugal.
Em 2007, o ator e cantor Angélico Vieira participa na novela " Dance Dance Dance ”, da Rede Bandeirantes, como Bruno Medeiros. No ano seguinte, 2008, Hugo Carvana faz uma participação especial em "Três Irmãs”, também da Globo.
Ultimamente tem aparecido muitos portugueses nas novelas brasileiras de Miguel Falabella. N novela "Negócio da China” (2008), exibida pela Globo, Miguel Falabella trabalhou com Joaquim Monchique que interpreta o imigrante Belarmino que veio ao Brasil com a mulher, representada por Carla Andrino, para trabalhar e melhorar de vida, Ricardo Pereira que faz de sobrinho e ainda Maria Vieira que representa a irmã. Ricardo Pereira e Maria Vieira interpretam a típica personagem que vai para o Brasil á procura de uma vida melhor. Esta novela teve um núcleo importante de atores portugueses e as primeiras cenas foram filmadas em Lisboa. Na sua novela seguinte, "Aquele Beijo”, exibida também pela Globo, em 2011, voltou a trabalhar com Ricardo Pereira, Maria Vieira e ainda Marina Mota. Ricardo Pereira interpreta novamente uma novela brasileira da Globo, nesse ano, intitulada de "Insensato Coração”.
Em 2012, o remake de "Guerra dos Sexos” contou com uma participação especial do ator português Paulo Rocha que contracenou com Tony Ramos, ator brasileiro, que interpretava uma personagem portuguesa. (Javorski, 2013:12-14).
Ao longo do tempo esta relação entre os dois países foi melhorando e a presença portuguesa nas novelas brasileiras aumentou também. Contudo, segundo Nilson xavier, há atores que não se conseguem vingar porque nem todas as telenovelas precisam de atores portugueses.
Neste mercado de trabalho também se inserem brasileiros em novelas portuguesas, não são apenas os "astros lusitanos” que trabalham nas novelas brasileiras. Betty Faria, atriz brasileira, gravou a telenovela portuguesa "Verão Quente”, exibida pela RTP1, durante o ano de 1993. (RTP). Flávio Galvão participou em 2002 na "Lusitana Paixão”, exibida também pela RTP1. Oscar Magrini e Leonardo Vieira foram outros atores brasileiros que participaram na mesma novela portuguesa "Ganância”, a primeira produzida e transmitida pela SIC em 2001. (Novelas Portuguesas). Oscar Magrini participou ainda, nesse mesmo ano, em "A Senhora das Águas”, transmitida pela RTP1.
Em 2010 surge a novela "Laços de Sangue ”, transmitida pela SIC. É a primeira resultante da parceria entre a SIC e Rede Globo, onde entram alguns convidados especiais como a atriz brasileira Susana Vieira e o ator brasileiro Max Kablukow.


Entrevista às atrizes portuguesas Maria Vieira e Carla Andrino



Entrevista a Isabel Ferin Cunha, investigadora do Centro de Investigação Media e Jornalismo




Referências

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Javorski, E. (2013). De António Maria a Balacobaco: panorama da presença portuguesa na telenovela brasileira. Universidade de Coimbra, Portugal. Recuperado em 28 de Julho, 2014 de http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/9o-encontro-2013/artigos/gt-historia-da-midia-audiovisual-e-visual/de-antonio-maria-a-balacobaco-panorama-da-presenca-portuguesa-na-telenovela-brasileira

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RTP (n.d). Verão Quente. Recuperado em 29 de Julho, 2014 de http://www.rtp.pt/programa/tv/p5056

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Teledramaturgia (n.d). Carmen. Recuperado em 29 de Julho, 2014 dehttp://www.teledramaturgia.com.br/tele/carmemq.asp

Valdigem, C. (2005). A indústria cultural televisiva como fonte mediadora de processos de hibridação cultural: estudo de receção da telenovela brasileira O Clone. Universidade Católica Portuguesa, Portugal. Recuperado em 29 de Julho, 2014 dehttp://www.bocc.ubi.pt/pag/valdigem-catarina-industria-cultural-televisiva-fonte-mediadora-processos.pdf


Trabalho elaborado no âmbito da unidade curricular de Media e Mercado de Língua Portuguesa do Mestrado em Comunicação Aplicada - Especialidade de Estudos Aplicados em Jornalismo

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