Dossiês

O perfil das audiências portuguesas tem-se alterado bastante desde a década de 70

Tipo de Público Português: Perfil das Audiências

Daniel Brízido Costa
03/09/2014
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Na década de 70 todos os sexos e classes etárias viam as telenovelas por serem uma novidade na programação. No entanto, a década de 90 veio dividir e alterar significativamente o perfil das audiências.


A 16 de maio de 1977 deu-se a primeira transmissão de uma novela brasileira, que obteve grande sucesso e aprovação pelo público português. A mudança marca o início da trajetória das telenovelas nas redes de televisão portuguesas, um longo percurso que passa por diversas fases no decorrer da história dos media. Pode-se apontar a primeira transmissão de Gabriela como o ponto de partida para o início da inserção da ficção televisiva em Portugal. Na década de oitenta, as telenovelas tomaram as audiências em Portugal, facto que dura até aos dias de hoje. 

Década de 1970

Num Portugal dividido pelas guerras a nível político no panorama familiar e nacional, a telenovela Gabriela veio gerar uma grande coesão e unanimidade social em função da interatividade que promove como seu público, proporcionando um fator de mediação cultural e política entre os diversos grupos sociais. Entretanto, os temas abordados pela novela fazem da sua receção desta, um fenómeno de audiências predominantemente masculino.
Em 1977, por exemplo, o número de televisões por mil habitantes girava à volta de 150 e era costume em Portugal assistir-se às telenovelas nas associações de bairro, sedes de associações, cafés e associações de moradores, fazendo assim um efeito de interatividade em grupo originado pela visualização em conjunto das telenovelas.
Na novela Gabriela, há uma grande aproximação do público, tendo em conta o panorama pós Revolução do 25 de Abril, que também terminou o ciclo imperial. Alguns temas do quotidiano, como a liberdade sexual, emancipação da mulher e as mudanças de estilos de vida e costumes também vieram auxiliar a essa aproximação.
Esta geração viveu a sua adolescência predominantemente entre a revolução de 1974 e o início da década de 1980.
Em 1978 estreia em Portugal, na RTP, a novela Casarão, que teve 168 episódios e que foi produzida pela brasileira Globo. A novela abordava temas como o feminismo, a política, a velhice e até mesmo a evolução do comportamento humano, razões que levaram o público mais jovem a ver esta novela.
Como era novidade na altura, todos os sexos e classes etárias viam as telenovelas na década de 1970 em Portugal. A falta de escolha de telenovelas também ajudou para que acontecesse esse fenómeno.
Contudo, como quase todas as novelas da época, tais como a Escrava Isaura e a Gabriela, abordavam temas como a emancipação feminina, o público feminino português começou desde então a ter mais aproximação às novelas. Quanto ao ensino, não havia grande diferença entre o público consumidor, pois tanto os mais letrados como os menos letrados, consumiam as novelas da época, visto ser novidade e haver falta de escolha de conteúdos televisivos, tanto pelo conteúdo em si como por só haver uma estação televisiva, a RTP.
Para concluir, no início das transmissões das novelas brasileiras em Portugal (década de 1970), o perfil de audiência era muito vasto e variado, visto que não havia grande opção de escolha por parte dos consumidores.

Década de 1980

Apesar de pública, a televisão, a partir de 1980, torna-se num dos agentes mais dinâmicos da modernização, já que 90% das casas tinham televisão. Isto faz com que se constitua um centro de informação e de cultura nacional e internacional, estabelecendo relações entre imagens e realidades. Assim, normalizaram-se os procedimentos privados e públicos, conferindo rotinas ao quotidiano.
Abordando o tema da ficção, a televisão pública experimentou nesta década, variar a oferta, colocando Portugal no caminho das produções globalizadas, ao mesmo tempo que se pensava nas primeiras tentativas de telenovelas portuguesas e se mantinha a receita de sucesso do prime-time fundada na sequência: telenovela brasileira-telejornal-telenovela brasileira. Telenovelas como Água Viva, Roque Santeiro e Tudo ou Nada marcaram esta década que teve grandes mudanças ao nível do perfil da sua audiência. Com o aparecimento de cada vez mais conteúdos de informação e cultura no Canal 2 (RTP 2) o público passou a ter cada vez mais opção de escolha e, com isso, passou a ver maior divisão de audiência em relação aos conteúdos transmitidos. Não havendo alternativa, aos dois canais públicos, as audiências eram cativas, chegando aos 92% do universo dos espetadores, durante os períodos de exibição das telenovelas brasileiras, nomeadamente das preferidas Escrava Isaura, Guerra dos Sexos e Roque Santeiro.
Dito isto, era o público menos letrado que, predominantemente, consumia as telenovelas transmitidas pela RTP1, sendo que o restante público preferia ver programas de interesse cultural. Mais uma vez, era, predominantemente, o público feminino que consumia as telenovelas brasileiras, pois a maior parte desse público conseguia identificar-se com as personagens da telenovela. Contudo, a divisão do perfil da audiência não é muito visível quanto à idade do público, visto que ainda não havia grande variedade de telenovelas brasileiras em Portugal. No entanto, a divisão existe quanto ao sexo e escolaridade. As maiores divisões vão assistir-se na década de 90 e 2000 como vai ser constatado nos próximos subtítulos.

Década de 1990

A década de 90 veio alterar por completo o consumo das telenovelas brasileiras em Portugal. A estabilidade económica e política proporcionou um constante aumento dos indicadores sociais, económicos e de bem-estar dos portugueses. Com o desenvolvimento da publicidade abre-se caminho a dois operadores privados de televisão: a SIC e a TVI que começaram as suas atividades, respetivamente em 6 de Outubro de 1992 e a 20 de Fevereiro de 1993. Estas duas inaugurações fizeram com a audiência se dividisse por completo. A capacidade de escolha passou de 2 para 4 canais de televisão, já para não falar na variedade dos seus conteúdos. Outro momento de grande importância para o estudo do perfil das audiências, foi a fase em que a SIC começa a transmitir em grande escala as produções da Rede Globo. Com isso, os espetadores aumentaram de 65,9% para 70,8% da população total, a média de tempo gasto frente aos televisores passou de 258 minutos diários para 239, sendo a classe D (a considerada mais popular e menos letrada) que mais tempo passou frente à televisão, cerca de 4horas diárias. A partir do Verão de 1994, as telenovelas brasileiras exibidas na SIC, chegam a captar 80% a 85% do total das audiências.
Com isto, pode ser dito que a SIC mudou totalmente o panorama das audiências das telenovelas brasileiras em Portugal. Na década de 90 era a Classe D que mais via as telenovelas brasileiras, na maior parte das vezes o público mais jovem durante a tarde, e o público mais velho durante a noite. Continua a ser o fiel público feminino a ser o público que mais visiona as ditas telenovelas, apesar de o público masculino estar, nesta década, cada vez mais a aderir aos serões televisivos das novelas brasileiras.

Década de 2000 e 2010

Nas década de 2000 e 2010 encontramo-nos num período onde as telenovelas brasileiras já estão implementadas totalmente no panorama cultural dos portugueses. A única alteração que surge durante a década de 2000, é a cada vez maior aposta na ficção nacional, com diversas produções a estrearam nos 3 principais canais, RTP, SIC e TVI, esta última a grande impulsionadora destas mesmas produções, tornando-se já um dado adquirido na década de 2010.
Com a maior variedade de produções da rede Globo em Portugal, os públicos têm maior facilidade de escolha perante os seus gostos. Com isso, dividi as telenovelas em estilos de narração para atribuir o perfil das suas audiências: As produções históricas; As produções contemporâneas; e as produções contemporâneas de caráter cómico. O público feminino continua a ser aquele que mais consume as telenovelas brasileiras em Portugal, sendo esse um fator continuo desde a Gabriela. Outro fator que é unânime em todas as produções brasileiras é que estas são consumidas por pessoas que frequentam/frequentaram o ensino básico, predominantemente. Os únicos fatores que variam consoante as produções são o posto de trabalho e a faixa etária. As produções históricas são consumidas, predominantemente, por trabalhadores não qualificados e domésticos. As produções contemporâneas predominantemente por estudante, e as produções contemporâneas de caráter cómico por trabalhadores não qualificados. Quanto à faixa etária, as produções históricas são mais consumidas pelo público que nasceu durante o Estado Novo, com idades compreendidas entre os 45 e 65 anos de idade. Já tanto as produções contemporâneas, como as produções contemporâneas de caráter cómico são, predominantemente, consumidas pelo público com idades inferiores a 20 anos de idade.

Conclusão

Para concluir o trabalho, é importante referir que a década de 90 veio alterar por completo o modo como as audiências ficaram cada vez mais divididas, em relação ao seu perfil. Na década de 70, como era novidade na altura, todos os sexos e classes etárias viam as telenovelas. A falta de escolha de telenovelas também ajudou para que acontecesse esse fenómeno. Quanto ao ensino, não havia grande diferença entre o público consumidor, pois tanto os mais letrados como os menos letrados, consumiam as novelas da época, visto ser novidade e haver falta de escolha de conteúdos televisivos, tanto pelo conteúdo em si como por só haver uma estação televisiva, a RTP.
Na década de 80 era o público menos letrado que, predominantemente, consumia as telenovelas transmitidas pela RTP1, sendo que o restante público preferia ver programas de interesse cultural, no canal 2 (RTP2). Mais uma vez, era, predominantemente, o público feminino que consumia as telenovelas brasileiras, pois a maior parte desse público conseguia identificar-se com as personagens da telenovela. Contudo, a divisão do perfil da audiência não é muito visível quanto à idade do público, visto que ainda não havia grande variedade de telenovelas brasileiras em Portugal. No entanto, a divisão existe quanto ao sexo e escolaridade. 
Na década de 90, pode ser dito que a SIC mudou totalmente o panorama das audiências das telenovelas brasileiras em Portugal. Era a Classe D (mais popular e menos letrada) que mais via as telenovelas brasileiras, na maior parte das vezes o público mais jovem durante a tarde, e o público mais velho durante a noite. Continua a ser o fiel público feminino a ser o público que mais visiona as ditas telenovelas, apesar de o público masculino estar, nesta década, cada vez mais a aderir aos serões televisivos das novelas brasileiras.
Na década de 2000 e 2010, o público feminino continua a ser aquele que mais consume as telenovelas brasileiras em Portugal, sendo esse um fator continuo desde a Gabriela. Outro fator que é unânime em todas as produções brasileiras é que estas são consumidas por pessoas que frequentam/frequentaram o ensino básico, predominantemente. Os únicos fatores que variam consoante as produções são o posto de trabalho e a faixa etária. As produções históricas são consumidas, predominantemente, por trabalhadores não qualificados e domésticos. As produções contemporâneas predominantemente por estudantes, e as produções contemporâneas de caráter cómico por trabalhadores não qualificados. Quanto à faixa etária, as produções históricas são mais consumidas pelo público que nasceu durante o Estado Novo, com idades compreendidas entre os 45 e 65 anos de idade. Já tanto as produções contemporâneas, como as produções contemporâneas de caráter cómico são, predominantemente, consumidas pelo público com idades inferiores a 20 anos de idade.


Referências

Cunha, I. (2010). Audiências e recepção das telenovelas brasileiras em Portugal. Comunicação, Mídia e Consumo. São Paulo. Vol. 7 N. 20 p. 91-118

Cunha, I. (2003). As telenovelas brasileiras em Portugal. Universidade de Coimbra. Recuperado em 30 de Julho, 2014 de http://www.bocc.ubi.pt/pag/cunha-isabel-ferin-telenovelas-brasileiras.pdf

Cardoso, G. e Amaral, S. (2006). Ficção, Notícias e Entretenimento: As  Idades da TV em Portugal. OBERCOM. Recuperado em 30 de Julho, 2014 de http://www.obercom.pt/client/?newsId=30&fileName=wr4.pdf


Trabalho elaborado no âmbito da unidade curricular de Media e Mercado de Língua Portuguesa do Mestrado em Comunicação Aplicada - Especialidade de Estudos Aplicados em Jornalismo

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