Dossiês

A personagem Gabriela foi interpretada pela atriz Sônia Braga

A chegada do Brasil a Portugal através de “Gabriela”

Cátia Tocha
03/09/2014
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Foi no conturbado ano de 1977 que surgiu "Gabriela”, a primeira novela brasileira transmitida em Portugal. As pessoas que viveram nessa época não esquecem o fenómeno que a transmissão da versão original provocou na sociedade portuguesa.


Após a ditadura salazarista e a revolução do 25 de abril de 1974, o ano de 1977 deu início a um período de transição para a democracia. Nessa altura havia uma crise política permanente (Cunha, 2003). O sociólogo António Barreto (apud Cunha 2003) descreve a época de 1977 como sendo um «período em que a crise política é quase permanente, pela instabilidade, por um alto grau de conflitualidade, pela "normalização" da democracia e do mercado, pelo gradual desfazer dos dispositivos constitucionais revolucionários e até pelas consequências de recessões e crises económicas externas». Segundo Barreto, a crise terminou em 1985 com a entrada de Portugal na União Europeia.
Foi nesse conturbado ano de 1977 que surgiu "Gabriela”, a primeira novela brasileira transmitida em Portugal, cujo contexto histórico contribuiu bastante para o grande impacto da mesma na sociedade portuguesa. Os portugueses puderam então observar através da "caixa mágica” outros valores morais e diferentes costumes (Cunha, 2003). A telenovela brasileira tem sido até hoje um dos elementos que mais contribui para a "constituição de uma identidade brasileira em Portugal, permeada por narrativas, símbolos, tramas e personagens veiculados pela mídia televisiva portuguesa e pelas indústrias culturais brasileiras que atuam naquele país” (Lisboa, 2011: 283).
A "Gabriela” e restantes novelas transmitidas até hoje têm contribuído para a formação e identificação das representações sociais do Brasil no imaginário dos portugueses (Cunha, 2003; Lisboa, 2011: 278). "Exibidas há mais de trinta anos na televisão generalista portuguesa, as telenovelas brasileiras têm se caracterizado como um produto midiático de forte impacto em Portugal, sendo que suas tramas, personagens, enredos e simbologias adensam os discursos do senso comum português e as concepções sociais acerca de temas variados” (Lisboa, 2011: 280).
Devido ao visionamento de novelas brasileiras, os portugueses acabam por saber mais sobre o Brasil do que os brasileiros sabem sobre Portugal (Lisboa apud Lisboa, 2011: 281). E foi a RTP, primeiro canal de televisão português e único na altura, a transmitir "Gabriela”.

RTP inicia o consumo de novelas brasileiras

Entre 1957 e 1992, a televisão foi um monopólio do Estado pois só havia o canal a preto e branco com a sigla RTP e, como televisão estatal deveria exercer o serviço público. Durante o período revolucionário, o isolamento da televisão pública dos outros meios de comunicação e a intervenção financeira e reguladora por parte de quem estava no poder eram notáveis (Cunha, 2003). Em 1977, os problemas financeiros levaram a "uma reestruturação da televisão e à reformulação de programas”. O ecrã que antigamente transmitia mini-séries europeias, "alto-teatro” e outro género de programas à audiência portuguesa, veio surpreendê-la com a transmissão da primeira novela brasileira (Faria, 2012). A 16 de maio desse mesmo ano começou a transmissão em horário nobre de "Gabriela, Cravo e Canela”, um dos programas que alterou "o percurso da televisão em Portugal” e antecipou e simbolizou "a emergência de uma nova sociedade e estilos de vida centrados no consumo e nos media” (Cunha, 2003).
No entanto, a opção pelas telenovelas brasileiras para manter audiências causou discordâncias. Alguns achavam que este produto brasileiro representava um perigo, pois receavam a "influência dos falares e vivências culturais brasileiras” na sociedade portuguesa. Outros afirmavam que a RTP tinha a obrigação de divulgar a cultura feita em Portugal por português, por ser uma televisão pública paga com impostos públicos (Cunha, 2003). Mas havia quem também achasse que esta transmissão iria enriquecer linguisticamente os portugueses. A exibição da telenovela foi justificada através da língua e literatura contida num "produto em português e de qualidade literária” (Cunha, 2003).
"Portugal parou para ver a primeira telenovela brasileira” e nem a crise e a chegada do FMI no final de 1977 impediram a sociedade portuguesa de continuar a ver "Gabriela” (Faria, 2012). O sucesso da novela contribuiu para a sua repetição à hora de almoço e para novos acordos e compras de telenovelas. (Ferin, 2003). Mas antes de a novela ser transmitida em Portugal, já existia um público consumidor de vários produtos da indústria cultural brasileira, como a música popular brasileira, o cinema e a literatura, área onde Jorge Amado, autor de "Gabriela, Cravo e Canela”, já era conhecido pelos portugueses (Cunha apud Cunha e Silva, 2014: 24). Baseada na obra do escritor brasileiro, a ação da novela "Gabriela, Cravo e Canela” decorria em Ilhéus, "a cidade dos coronéis” (Faria, 2012).

"Gabriela” na cidade dos coronéis

Na cidade de Ilhéus, a vinda do progresso colidia com o acentuado conservadorismo. Foi a atriz Sónia Braga quem representou a personagem principal Gabriela, mulher inocente e analfabeta que apaixonou o povo português com a sua beleza e com o seu ar sensual e selvagem (Faria, 2012). A protagonista era uma "ingénua moça do sertão cujo comportamento chocava com as regras da sociedade conservadora de Ilhéus, uma cidade no Sul da Baía onde os coronéis mais os seus jagunços reinavam e as senhoras ‘bem’ calavam” (Ruela, 2012). A personagem Nacib encantou-se pela jovem, empregou-a no seu bar em Ilhéus e a paixão entre ambos foi uma das histórias abordadas na novela.
O domínio dos coronéis através da lei do chicote e da bala, as meninas de família que fugiam a casamentos combinados, os jovens que desafiavam o poder e as prostitutas do "Bataclã” que proporcionavam prazer aos maridos de outras mulheres, eram alguns dos temas abordados na novela (Faria, 2012). A parte política era seguida com atenção pelo público, sendo representada através do confronto entre os senhores do cacau, poderosos e retrógrados liderados pelo Coronel Ramiro Bastos, e os interesses das pessoas ligadas ao comércio e às profissões liberais (Feronha, 2004). 
Os estereótipos da masculinidade e da feminilidade estavam bastante presentes em "Gabriela”. O homem teria força física e demonstrava-a por vezes através da violência, e a mulher teria beleza, emoção, timidez ou desejo de encontrar um homem. "Estes estereótipos articulam, ainda, de forma clara, os papéis sexuais, primeiramente limitando a mulher a uma esfera privada e domés¬tica que corresponde a um estatuto social inferior ao homem” (Cunha e Silva, 2014: 32). Esta era também uma realidade portuguesa, e a transmissão de "Gabriela” veio demonstrá-la (Cunha, 2003), além de abordar também a emancipação feminina, um dos temas centrais de "Gabriela, Cravo e Canela”, sendo a personagem Malvina a que mais simboliza o assunto (Ruela, 2012). Mas outros temas foram também fortemente abordados, como o da política, que atraía bastante o povo masculino português.

Temas mais abordados na novela

O público, inclusive jornalistas e críticos, percepcionava os temas abordados na novela e comparava-os com o contexto social, económico e político de Portugal após a revolução do 25 de abril. Os temas mais destacados estavam relacionados com a "questão da língua e da literatura (questão de identidade no fim do Império colonial), da política (em função do período de grande conflitualidade vivida quotidianamente), dos actores e das personagens (espanto frente ao universo dos media portador de mitologias e utopias desconhecidas) e, por último, sobre os efeitos e a recepção da telenovela (necessidade de identificar apropriações de sentidos)” (Cunha, 2003).
A novela sempre foi vista como um produto direcionado mais para o público feminino. No entanto, em Portugal tornou-se um consumo dirigido principalmente para o género masculino. A presença do tema político e de mulheres atraentes foram os fatores que mais contribuíram para tal (Cunha, 2003). O tema da política é o que envolve mais subtemas. "A política portuguesa é lida, relida, discutida, escrita e reescrita, humoristicamente glosada através da Gabriela, suas personagens, cenários e acções”, o que dá à novela e televisão o poder de educarem ou deseducarem a grande audiência portuguesa, que tinha na altura uma elevada percentagem de analfabetismo e estava afastada das práticas políticas (Cunha, 2003). Alguns telespectadores, políticos inclusive, afirmaram haver semelhanças entre a novela e a realidade portuguesa. Muitos telespectadores encontravam nela uma semelhança com a situação de fascismo vivida em Portugal, devido à existência dos coronéis conservadores no enredo, que queriam dominar através da lei "do chicote” e da "bala” e impedir o progresso e o modernismo (Cunha, 2003; Feronha, 2004).
A visualização, por vezes em família, das referidas novelas gerou discussões relacionadas com sobre questões de género, de identidade feminina, sexualidade, sensualidade e poder patriarcal. Assistir à "Gabriela” levou, por exemplo, a sociedade a um trabalho de reconstrução individual, como o ser mulher, a sexualidade e a emancipação (Cunha e Silva, 2014: 22-23). A maioria dos artigos, críticas e reportagens sobre a novela "Gabriela” esteve mais relacionada com as personagens femininas, que despertavam maior espanto e perplexidade no público, sendo elas personagens principais ou secundárias (Gabriela, Glorinha, Jerusa, Malvina, Maria Machadão e meninas do Bataclã). O facto de algumas personagens serem mais livres e desinibidas, como Gabriela, e menos submissas, como Malvina, vieram mostrar atitudes e comportamentos mais modernos às mulheres portuguesas (Cunha, 2003). Isabel Ferin Cunha (2003) justifica essa ocorrência como causa da altura em que a cidadania feminina surgia cada vez mais, visível através da crescente participação das mulheres em várias movimentações sociais, bairros, campanhas de alfabetização, reforma agrária e empresas.
O fenómeno "Gabriela” não conquistou apenas um determinado tipo de classe, tendo vários estratos sociais aderido à sua visualização, desde políticos de esquerda ou de direita a intelectuais e operários (Faria, 2012).

A conquista de vários tipos de classes

Em 1977, o número de aparelhos televisivos era relativamente reduzido, o que levava as pessoas das aldeias, vilas e bairros a deslocarem-se propositadamente aos cafés, às associações de bairro e de moradores ou sedes de outras associações cooperativas, para poderem assistir à telenovela (Cunha, 2003). Os telespectadores falavam sobre a mesma na rua, em cafés, em transportes públicos e em muitos outros locais (Faria, 2012), o que causou uma interatividade entre eles por assistirem e comentarem a transmissão da "Gabriela” (Cunha, 2003).
O fenómeno causado pela entrada do novo produto brasileiro foi apelidado pelos jornais da época de "Gabrielomania”. Para Cunha (2003), "o produto Gabriela, apresentando outros falares da língua e outras vivências da cultura em português revela a existência de um Espaço Lusófono a potenciar”. A indústria cultural e de conteúdos brasileira beneficia da "língua comum mas, também, dum imaginário comum, de mitos, heróis, acontecimentos, paisagens, recordações e saudades, facilmente, identificados por todos os portugueses” O papel da novela brasileira tornou-se um agente de globalização e mostrou às classes médias portuguesas comportamentos, valores e estilos de vida comuns às sociedades ocidentais modernas (Cunha, 2003).

Surgimento de mudanças na cultura portuguesa

Após quarenta anos de ditadura propagandística e dois anos de revolução manipuladora, a novela "Gabriela” deu início em Portugal aos fenómenos da indústria cultural e à massificação das audiências centrada na televisão, contribuindo também bastante para a alfabetização do país. O português melódico dos brasileiros cativou os portugueses e não era de difícil compreensão como alguns temiam. Existiam até mesmo alguns temas usados pelos brasileiros que já quase tinham sido esquecidos em Portugal por falta de uso, como ‘oi’ e ‘inté’, que significa ‘até logo’ (Feronha, 2004; Faria, 2012).
O subtema da luta pela dignidade e liberdade das mulheres foi bastante destacado e discutido por jornalistas e críticos da época. Todas as mulheres, ricas ou pobres, tinham a mesma luta da emancipação e o mesmo desejo de serem aceites como eram e não como a sociedade queria que fossem.
A visualização da novela trouxe uma alteração ao quotidiano dos portugueses, desde a mudança de ritmos domésticos feitos em torno do horário da exibição da "Gabriela”, até aos gostos musicais suscitados pela trilha sonora da novela ou à roupa e penteados femininos imitados pelas portuguesas. A novela veio alterar os estereótipos masculinos atribuídos às mulheres (Cunha e Silva, 2014: 26-27). O cabelo solto da Gabriela era a representação da libertação da sexualidade feminina mas foi o cabelo "à Malvina”, uma das personagens femininas da novela, que se transformou numa nova tendência ao haver muitas lisboetas a imitarem o corte. A Malvina era uma menina de família que queria fugir ao casamento por conveniência e que foi "surrada” pelo pai com o chicote num dos episódios transmitidos na RTP (Faria, 2012). Afrontar o poder paternal ou marital, sentir desejo e prazer relativamente à sexualidade e sensualidade, entre outras coisas, foram uma novidade em Portugal. No entanto, uma professora primária viu o tema da sexualidade como algo com "efeitos negativos nas crianças” porque na sua escola via muitas "aos beijinhos, como o Nacib” (Cunha, 2003).
Em 2004 voltou a ser transmitida a novela que transformou o país, mas desta vez nas tardes da SIC, e a cores (Feronha, 2004). Após 27 anos desde a primeira transmissão, quem a tinha acompanhado na década de 70 não se esqueceu da história (Feronha, 2004). O ano de 2012 veio trazer aos portugueses o remake da história de Jorge Amado. 

Remake de "Gabriela, Cravo e Canela”

Em 2012 foi transmitido na SIC o remake da novela "Gabriela”, tendo sido a atriz brasileira Juliana Paes a escolhida para dar vida à protagonista, antigamente representada por Sónia Braga. Esta nova versão da TV Globo, que tinha como objetivo marcar as comemorações do centenário de Jorge Amado (Faria, 2012; Ruela, 2012), não causou tanta polémica e interesse nos telespectadores. Um dos motivos deve-se ao facto de em 2012 temas como a libertação sexual da mulher e a ditadura já extinta não cativarem tanto público como em 1977, onde tudo era uma novidade, desde a novela à imitação de alguns costumes e morais do povo brasileiro (Ruela, 2012). Foi a transmissão da versão original na década de 70 que mais impacto causou e que as pessoas atuais que viveram essa época não esquecem (Faria, 2012; Feronha, 2004).
Existem atualmente vários fatores em Portugal que tornaram o remake da novela menos popular do que o primeiro. Antigamente havia apenas um canal, agora são quatro os canais generalistas e outros tantos internacionais, por cabo ou satélite, de acesso pago. Outro fator é o crescimento da ficção portuguesa, algo inexistente na SIC na década de 90, canal onde eram exibidas novelas brasileiras da Rede Globo. A partir de 2000, a TVI começou a investir nas novelas portuguesas e conquistou significativamente a preferência da audiência nacional (Cunha apud Cunha e Silva, 2014: 24-25).
A nova versão foi rotulada por alguns como "soft porn”, por conter cenas um pouco mais sexuais do que a primeira versão. As cenas que mais prenderam a atenção do público foram aquelas passadas no bordel Bataclã (Ruela, 2012). Na década de 70, as cenas que mais cativavam a audiência também eram aquelas um pouco mais ousadas, como a de Gabriela a subir a um telhado, onde foi possível ver a sua "calcinha”.


Entrevista ao Diretor da TV Globo Portugal Ricardo Pereira e ao telespetador Paulo Monteiro




Entrevista a Isabel Ferin Cunha, investigadora do Centro de Investigação Media e Jornalismo




Referências 

Cunha, I. F. (2003). A revolução da Gabriela: o ano de 1977 em Portugal. In: Biblioteca Online de Ciências da Comunicação. Recuperado em 3 de junho, 2014, de http://bocc.ubi.pt/pag/cunha-isabel-ferin-revolucao-gabriela.html

Cunha, I. M. R. F.; Silva, J. F. T. (2014). A telenovela Gabriela na memória das mulheres brasileiras e portuguesas. In: Ciberlegenda. Recuperado em 9 de julho, 2014, de http://www.uff.br/ciberlegenda/ojs/index.php/revista/article/view/728

Faria, I. (2012, 9 de Setembro). Sapatos, não, senhor Nacib... In: Correio da Manhã. Recuperado em 8 de junho, 2014, de http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/outros/domingo/sapatos-nao-senhor-nacib

Feronha, J. L. (2004, 6 de Novembro). Gabriela, Portugal não foi igual depois dela. In: Correio da Manhã. Recuperado em 3 de junho, 2014, de http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/lazer/tv--media/gabriela-portugal-nao-foi-igual-depois-dela

Jornal i (2012, 10 de Setembro). Gabriela. A brasileira que levantou a saia de Portugal. Recuperado em 8 de junho, 2014, de http://www.ionline.pt/artigos/boa-vida/gabriela-brasileira-levantou-saia-portugal

Lisboa, W. T. (2011). Geração à Gabriela: memória e outras mediações na construção de representações do Brasil em Portugal. In: Anuário Internacional de Comunicação Lusófona. Recuperado em 3 de junho, 2014, de http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/anuario/article/view/810/729

Ruela, R. (2012, 10 de Setembro). A segunda vida de Gabriela. In: Visão. Recuperado em 8 de junho, 2014, de http://visao.sapo.pt/a-segunda-vida-de-gabriela=f684815

Sapo Notícias (2012, 10 de Agosto). "Gabriela, Cravo e Canela”, a primeira telenovela a passar em Portugal. Recuperado em 8 de junho, 2014, de http://noticias.sapo.pt/internacional/artigo/gabriela-cravo-e-canela-a-primei_4549.html


Trabalho elaborado no âmbito da unidade curricular de Media e Mercado de Língua Portuguesa do Mestrado em Comunicação Aplicada - Especialidade de Estudos Aplicados em Jornalismo

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